A pintura como diplomacia
O presente de 13 de junho de 1950 foi expressão de uma escolha deliberada. Como tal, veicula não apenas a experiência histórica da Espanha naquele momento, mas também uma possível intenção política. Trata-se de um caso que pode ser compreendido à luz do conceito de soft power, bastante recorrente na diplomacia contemporânea, como se vê entre os países que até hoje marcam presença na ONU por meio de doações simbólicas e outras contribuições materiais (SIEVERS, 2021, p. 115).
Em seu livro Diplomatic Gifts: A History in Fifty Presents, o diplomata britânico Paul Brummell (2022, p. 42) observa que, ao contrário da mercadoria vendida, o presente possui individualidade e cria um vínculo singular entre o doador e o destinatário. É o que ocorre, por exemplo, com as árvores de natal que a cidade de Oslo ainda hoje oferece anualmente ao povo de Londres, gesto que evoca tanto as coníferas norueguesas quanto o exílio de Haakon VII na capital britânica durante a Segunda Guerra Mundial (BRUMMELL, 2022, p. 276-280). De modo semelhante, quando Luís XVI presenteou o Congresso dos Estados Unidos em 1785 com retratos de si mesmo e da rainha, pretendia recordar o apoio francês na Guerra de Independência e fixar na memória americana a imagem da monarquia Bourbon (BRUMMELL, 2022, p. 192-198). Presentes diplomáticos dificilmente escapam ao cálculo; são narrativas condensadas.
No caso específico da tela baiana, se admitirmos que o apoio brasileiro fazia parte do horizonte de expectativa do governo franquista, será possível ensaiar uma releitura da composição de Maíno enquanto objeto artístico do século XVII transportado para a cuestión española do século XX. Sob essa nova ótica, quatro eixos simbólicos poderiam ser propostos como chaves de leitura do sentido não declarado do presente: o espírito de amizade, a ordem política do regime espanhol, a fé católica e o impasse com a geopolítica da ONU.
Em toda a cena composta por Maíno em La Recuperación de Bahia de Todos los Santos — e na cópia de Julio Barrera naturalmente —, o tema dominante é o da generosidade, ainda que ambientado na sangrenta batalha de expulsão dos holandeses em 1625. No contexto do pós-guerra, quando o Brasil chegou a rejeitar o desembarque de um embaixador espanhol acusado de envolvimento com os nazistas (SOUZA, 2009, p. 92-93), a diplomacia franquista não podia senão insistir na retórica da paz e da fraternidade, sobretudo diante de potenciais aliados.
No primeiro plano da pintura, um homem baleado no peito, provavelmente o espanhol Diego Ramirez da comédia de Lope de Vega (1625, p. 283), recebe cuidados de um jovem que o apoia por detrás e de uma mulher com tigela na mão pela frente. À esquerda, uma mãe com suas crianças, alegoria da Caridade (LÓPEZ-REY, 1979, p. 60-61), contempla o infortúnio do marido enquanto outra figura feminina se aproxima trazendo vestes, numa clara alusão à obra de misericórdia de vestir os desnudos (BROWN & ELLIOTT, 1986, p. 188). O triunfo militar é assim envolvido por uma ética da compaixão, em estilo tipicamente barroco.
A cena em que Dom Fadrique aponta para a tapeçaria reforça o mesmo espírito conciliador. Historicamente, após a capitulação holandesa, em 28 de abril de 1625, o general espanhol permitiu que os vencidos regressassem à Europa com roupas, mantimentos para três meses, armas e embarcações (VARNHAGEN, 1874, p. 37; SILVA, 1925, p. 41; BEHRENS, 2013, p. 166), num ato de clemência comparável ao de Ambrogio Spinola na cidade de Breda em junho do mesmo ano.2 Na pintura, esse perdão aparece dramatizado à maneira da já mencionada comédia El Brasil Restituido: Dom Fadrique consulta o retrato de Filipe IV de Espanha antes de proclamar o indulto geral, como se a magnanimidade emanasse da própria autoridade régia (VEGA, 1625, p. 294).
O segundo eixo simbólico é o da ordem política. Na cena da tapeçaria, uma linha oblíqua imaginária liga os cinco personagens adornados com faixa carmesim (PÉREZ & MARTÍN, 2023, p. 173, 176). Da esquerda para a direita, em progressão ascendente, figuram o capitão espanhol Enrique de Alagón, o general português Dom Manuel de Menezes, Dom Fadrique e, no extremo superior, o Conde-Duque de Olivares — posicionado acima do próprio rei. O arranjo, guardadas as proporções históricas, permite estabelecer uma analogia sugestiva com o modelo de “monarquia sem rei” inaugurado por Francisco Franco em 1947, quando se declarou chefe de Estado com prerrogativa de nomear sucessor, decisão que apenas em 1969 recairia sobre Juan Carlos I (GONZÁLEZ, 2019, p. 16-19). Comparativamente, na pintura, é o Conde-Duque quem coroa o Rei Planeta com louros, sublinhando a primazia do ministro na condução da política externa.
Estudos radiográficos realizados no Museu do Prado revelam, aliás, que Maíno inicialmente pintara o busto do Conde-Duque numa altura inferior à do monarca, alterando depois a hierarquia das figuras — possivelmente por exigência dos comitentes (GÓMEZ, 2010). A correção deixou discretas distorções anatômicas, como se a composição tivesse de se submeter à política; a estética cede à hierarquia.
Quanto ao terceiro eixo, a obra também dialoga com o posicionamento religioso do regime franquista. Como se sabe, a incursão batava no Brasil [Figura 3] fizera parte do contexto mais amplo das guerras de religião que se seguiram à Reforma Protestante do século XVI (NOORLANDER, 2019, p. 15-21). As Províncias Unidas, consolidadas no calvinismo desde o Sínodo de Dordrecht em 1618, não lograram anexar a cidade de Salvador em 1625, sofrendo uma derrota que, especialmente sob a ótica dos Habsburgo, foi experimentada como o triunfo da ortodoxia romana sobre a fé protestante. Dessa maneira, a tela de Julio Barrera pode também ser lida como evocação de um patrimônio espiritual comum de brasileiros e espanhóis na figura institucional da Igreja Católica.
Sob os pés de Filipe IV, a pintura apresenta a Heresia derrotada quebrando uma cruz com os dentes, enquanto a alegoria da Fraude, igualmente caída e humilhada, segura numa mão um ramo de oliveira e na outra uma adaga. Trata-se de uma clara referência à duplicidade maquiavélica, reforçada pelo aspecto bifronte da Fraude — traço inconfundível na descrição de Cesare Ripa (1611, p. 187). Na parte superior do quadro, conforme supramencionado, o Salmo 43:4 da Vulgata reafirma a confiança na Providência divina, que Nicolau Maquiavel rejeitara em nome de uma razão de Estado (BARTHAS, 2010, p. 256; BROWN, 2010). Essa forte tensão entre política e transcendência era incompatível não apenas com os ideais políticos espanhóis do século XVII, decididamente avessos ao maquiavelismo (RUIZ, 1993, p. 320), mas também com o nacional-catolicismo promovido pelo regime franquista no século XX, fiel ao providencialismo cristão (GONÇALVES, 2014, p. 200).
O quarto eixo simbólico, por fim, centra-se na figura de Minerva coroando Filipe IV e chama particular atenção por introduzir uma dissonância no conjunto da cena. Embora incluída como alegoria da paz e da vitória, a personagem contrasta com o monoteísmo cristão e com o temperamento artístico de Juan Bautista Maíno, que em nenhuma outra obra conhecida havia jamais pintado uma divindade pagã. Enquanto não se pode dizer que, no contexto renascentista, a mitologia clássica rivalizava com o cristianismo, ela, contudo, supria lacunas simbólicas, seja pela representação do amor erótico ou, sobretudo no caso de uma cena militar, pela projeção da divindade como ação e domínio — em oposição à passividade dos santos (BULL, 2005, p. 380-383). A Minerva do frade dominicano, assim, em lugar de uma figura católica como a Virgem Maria, parece mais propriamente anunciar a solução secular que se ia afigurando na Europa para as guerras de religião ou, transposta para o século XX e reinterpretada à luz dos embaraços da cuestión española, denuncia o delicado ajuste do franquismo a um mundo regulado por instituições liberais como a ONU.