A proposta e a inauguração
Friedrich Meinecke (1928, p. 285-286), expoente do velho historicismo alemão, acreditava que, ao longo do processo histórico, as influências causais mais fortes sempre partiam do Estado, mesmo no âmbito da vida cultural. Em estudo dedicado aos monumentos públicos brasileiros do período monárquico e da República Velha, o brasilianista Georg Wink (2014, p. 103) desenvolve perspectiva relativamente próxima e argumenta que é o Estado, em articulação com seus grupos aliados, que promove a edificação dos monumentos, tornando-se fundamental, portanto, que o historiador, ao estudá-los, leve em conta não apenas a dinâmica de poder que os produziu, mas também o que se disse em periódicos, folhetins, discursos proferidos em cerimônias de inauguração e nas inscrições gravadas diretamente na peça (WINK, 2014, p. 101-102). Nesse sentido, o mero exame da estética formal, por si só, nem sempre revelaria as motivações subjacentes a uma estátua comemorativa, pois ela poderia assumir significados distintos conforme as circunstâncias históricas e as ideias dominantes em cada época.
As observações de Georg Wink, porém, exigem qualificação, pois não é verdade que a configuração formal de uma estátua comemorativa seja destituída de sentido próprio ou incapaz de revelar algo acerca das motivações que presidiram à sua concepção. Como se verá adiante, o estilo adotado — seja ele neoclássico ou romântico, por exemplo — constitui, antes, uma forma de autoapresentação simbólica, por meio da qual determinados segmentos sociais procuram traduzir em imagens visíveis disposições morais, expectativas de ordem e concepções de autoridade. A essa dimensão da obra artística Erwin Panofsky (1955, p. 14) chamava "conteúdo", entendido como a expressão das atitudes fundamentais de uma época ou de certos grupos, a qual se dá, segundo ele julgava, involuntariamente, sem se esgotar na "ideia" ou na "forma". Assim, longe de ser um receptáculo vazio à espera de interpretação externa, é possível dizer que a estética formal de um monumento já contém, em sua própria linguagem visual, indícios do temperamento político e cultural que orientou sua realização.
Quando o Monumento a Maria Quitéria foi inaugurado, em 1953, o governo do presidente Getúlio Vargas passava por uma grave crise junto às Forças Armadas (COELHO, 2019, p. 77-78). A facção nacionalista, isto é, os setores do país que defendiam a política trabalhista, o protecionismo industrial e o monopólio estatal dos recursos estratégicos (CARVALHO, 2008, p. 128-129), havia sofrido um duro golpe no ano anterior com a demissão do ministro da guerra, o general Estillac Leal. Enquanto Getúlio Vargas perdia aliados, seus adversários no Exército e os liberais conservadores da UDN ampliavam sua influência, sobretudo em reação à campanha “O petróleo é nosso!” e à criação da Petrobrás em outubro de 1953 (CARVALHO, 2005, p. 113).